domingo, 6 de junio de 2010

Crônicas de Ponto de ônibus

Eu passava horas lendo nos bancos da praia de Guaratuba. Nesse dia eu lia Macbeth e fumava um kretek, deixando o vento queimar todo o cigarro para sentir o cheiro de cravo sem nem ao menos levá-lo a boca, um ritual de leitura. Acontece que eu não percebi a reação química mortal que estava formulando: Cigarros, e um livro trágico. Não, não queimei o livro ou qualquer parte de meu corpo.
Acontece que livros trágicos são feitos para ler em locais com boa ventilação, longe de objetos cortantes ou inflamáveis, e longe de piratas e do Raul Seixas. Livros trágicos são programados para atrair situações trágicas.
Outro problema de quando você torna esse hábito público é que não está acostumado a guardar a carteira de cigarros. Carteira de cigarros também têm um certo magnetismo. Atraem fumantes. Fumantes que não tem cigarros.
"Boa tarde, você teria um cigarro para me favorecer?". Impressionado com a educação, e o mal jeito em dizer "não", cedi, no entanto ele se sentou ao meu lado. Não tirei o olho das páginas. "Esse lugar é bonito, não é mesmo?". Respondi com meu mal jeito em dizer "sim", mas dessa vez eu fechei o livro, pois percebi que eu estava diante de um fenômeno P.L.P.O. (Pararraio de Loucos em Pontos de Ônibus, um fenômeno que acontece frequentemente comigo), apesar de não estar em um ponto de ônibus no momento. Segue o diálogo:
- Está vendo aquelas duas pombinhas ali? - disse o desconhecido
- hmm... - "afirmei", entediado.
- Eu as conheço. Elas vieram do Espírito Santo - mais um religioso, pensei -  Desde pequeno eu corria com elas nas praias do Espírito Santo.
- hmmmm... - "continuei", espantado.
- Porque eu tenho um segredo para te contar. Eu notei que você é uma pessoa esclarecida e culta, então você merece saber: eu sou Raul Seixas.
Eu olhei para ele no mesmo momento. Roupas velhas e rasgadas, um par de tênis pendurado no pescoço, uma mochila nas costas. Ele tinha um cabelo grisalho uma barba cheia, um sorriso desdentado, e um hálito característico do velho Raul dos Santos Seixas. Cachaça Carai.
Eu continuei em silêncio. Ele não:
- Tá vendo aquelas duas mulheres ali? - disse o Raul
- ham... sim, sim. - comecei a interagir além dos limites.
- Elas são namoradas.
- Como você sabe?
- Eu as conheço.
- ah tá.
- Uma gosta mais da outra.
- Como você sabe? - não fiz questão de mudar as palavras tão menos a intonação.
- Uma é gorda, a outra é magra. Qual você acha que gosta e qual você acha que não?
- Não faço ideia.
- A magra gosta da outra. Ela se cuida e faz ginástica. A gorda está infeliz e não liga para a outra.
- Sua teoria é boa. Mas isso acontece em todos os relacionamentos.
- Tá vendo aquela mulher ali? Com as crianças? - ele mudou de assunto, acho que queria falar sobre cada um que estava presente ali.
- Sim.
- Ela tentou matar as crianças ontem. Levou as três meninas no mar e deixou elas se afogarem.
- Sério? como você sabe?
- Eu mesmo salvei elas e chamei a polícia.
- Bah! E ela já está livre? Haveria de estar presa ainda.
- Presa deveria estar a mãe delas que pagou para a moça matar as crianças.
Eu estava começando a me interessar pela criatividade poética desse homem, mas então para equilibrar o cosmos chegaram mais dois sujeitos, com sacos de latinhas nas costas (não desmerecendo a profissão), um deles pede um cigarro. Dou. o outro pede também e eu penso "vamos ver onde isso vai parar" olho para o Raul Seixas e ele balança a cabeça em sinal de negação e indignação, como se a cena fosse absurda! "Como esses dois pedintes ousam atrapalhar a conversa de dois cidadãos em sua conversa culta. Tudo bem, é um fruto do sistema capitalista, eles não tem culpa", é o que Raul provavelmente pensava em seu gesto. Dei o cigarro e o primeiro gritou:
- Eu conheeeeeço você!!!!!!! - apontando para mim - Você é pirata né véi?!?!
- o.o'
- Sim eu conheço você!!! Você é pirata, essa barba aí, eu to ligado!
- É verdade!!! - exclamei, ironicamente, por óbvio.
- Eu já vi você nas ruas por aí, você já andou pelas ruas de Curitiba né?
- Ham... sim, algumas vezes.
- Poooooooorra... Eu vi você lá em agosto.
- Impossível. - eu disse no impulso, mas me arrependi.
- Então, você mora em Florianópolis?
- Não.
- Londrina?
- Não.
- Curitiba?
- Não.
- Ali de Paranaguá?
- Nããão.
- Porra, você é de onde mesmo. Já sei você é deeeeeee...
- Foz do Iguaçu. - Mamãe ensinou a não dar pistas sobre onde mora ou quanto ganha para estranhos, mas eu não resisti, a conversa estava cada vez mais interessante.
- AAAAaaaaaaaaahhhh - gritaram os dois.
- Só surfando no paranazão!!! - um deles falou.
- Sim - eu disse e caí em risos.
- E aí, só levando umas toneladas de maconha então. - Eu não fiquei surpreso com a reputação da minha cidade, nem perdi o bom humor:
- Não cara, não faço essas paradas, só muamba mesmo! - obviamente era mentira!
- Aaaah tô ligado! E o que você tá lendo aí?
- Shakespeare.
- Ooorra o cara é culto então! E o que você está entendendo do livro?
- Bem... Por enquanto tudo.
- Mas o que é tudo na sua concepção? - pronto. Filosofia.
- Isso é muito relativo, eu demoraria horas pra te explicar meu conceito. Mas o livro fala sobre a ganância de um homem e as consequências que ele acaba sofrendo por agir movido por esse sentimento.
- Tô ligado. Mas vamos indo nessa, brother! Valeu pelo cigarro e pelo papo, a gente se esbarra.
- Falou, cara, boa sorte aí!
- Valeu pirata!
Olhei para o Raul Seixas que continuou sua conversa de onde tinha parado, como se estivesse congelado enquanto os outros dois estavam lá. Falou sobre como foi crescer aos pés do Tom Bonjim (sim, ele disse isso) e outras personalidades. Pura poesia. Antes de ir embora ele disse:
- Arranja um óculos escuro pra mim, que eu vou passar daqui a meia hora.
- Haaaaam.... óculos?
- É, óculos de sol, pode ser daqueles normais mesmo.- Sinceramente eu não sei se isso era um tipo de gíria ou código, mas eu não entendi muito de toda a conversa dele, então não fez diferença.
- Eeeerm... ok, vou tentar.
- Não. Você vai arranjar. Daqui meia hora eu volto pra buscar. Agora vou ali na casa da mulher que ela disse que comprou um tênis pra mim. - e apontou pra casa mais luxuosa da praia.
- Ah, tá, pode deixar.

Assim que ele foi embora eu percebi a atmosfera na qual me encontrava, olhei para os lados e vi que um grande número de pessoas das barraquinhas olhavam para mim, eles também ouviram a conversa e riram. Eu ri igualmente e fui embora antes que se passasse meia hora mesmo, vai saber se Raul Seixas voltaria reclamando os óculos escuros que eram seus por direito.


P.S.: Até hoje não coloquei o "Raul Seixas Guaratubano" na lista junto com deus, papai noel e ganhar na mega-sena, pois eu não sei se acredito nele ou não.

5 comentarios:

  1. Mentira...vou te indicar pra mais blogueiros!

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  2. É, e ela indicou mesmo.
    Também morei em Foz.

    Legal seu texto.

    abraço

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  3. Bom demais seu texto mesmo...
    Parabéns...

    Adorei quando o hippie continua o papo do mesmo ponto que ele tinha parado, como se tivesse ficado congelado... ehhehe
    muito bom !

    abraços !

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  4. Eu lembro desse dia! IUHDFUIAHSDIU...vc ficou meio perturbado depois dessa conversa com o Raul!
    Falando nisso, devia ser algum coléga dele dormindo debaixo do ônibus do Ambulatório Itinerante na beira da praia, um que eu tirei foto! UHDUAHSDUHA

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