viernes, 26 de febrero de 2010

Harlequinada


A função do Harlequin é roubar o amor do Pierrot...









...Depois tudo recomeça.

martes, 9 de febrero de 2010

Digno de imolação.

Admitir que a divindade à qual os cristãos estão subordinados é boa, benévola, humilde, compassiva, nem sempre foi tão simples se inferida através das intercessões em fatalidades às quais sua mais próxima criação - aquela que procura demonstrar a superioridade racional subjugando os indivíduos de sua coletividade, estabelecendo padrões de conduta de fácil assimilação também aos menos favorecidos intelectualmente, e por inúmeras vezes proporcionando desditas a si mesmos; pois criaram uma espécie de vaidade que impele à frivolidade. Portanto, sua finalidade é a ostentação mediante o conformismo de sua autodestruição refratada pelos intentos fantoches - tais como a punição conferida aos judeus, que após tantos anos sofrendo as condições de um suposto deserto foram capazes de erigir um tabernáculo com colunas de bronze e capitéis de prata maciça ou mesmo um bezerro de ouro (que não é outra coisa senão o Deus Ápis) produzido por Aarão irmão de Moisés em tão somente um dia!; o monumento seria adorado aos pés das mesmas montanhas em que Deus falava a Moisés.

Pois bem, se considerarmos que Deus não reprovou a atitude deste seu discípulo mais próximo, que ao vê-los adorar aquela outra divindade ordenou que decaptassem vinte e três mil homens, tampouco o massacre de vinte e quatro mil israelitas, igualmente pela ordem mosaica para expiar o pecado cometido por um só que foi surpreendido com uma madianita. Talvez também fosse vontade divina a represália de Eliseu ao fazer aparecer ursos para devorar quarenta e dois meninos que o chamaram de careca ; logo, se estas atitudes e humores destes homens são tão arbitrárias quanto as de seu Deus, não é possível declarar com justeza que havia justiça para com os pecados, mais verossímil seria a proposição de que fossem oferendas ao Demônio, do qual a participação nem é citada. Entretanto, se nos cabe a ideia de que esta soberana entidade Deus, seja onipotente, onipresente e onisciente, por consequência é irrevogável a asserção de um destino por ele premeditado, algo que seria oposto ao pretenso livre-arbítrio e nos eximiria dos conceitos de pecado, culpa, dever, atribuindo-os juntamente de seu estado de miséria ao próprio criador.

Assim, torna-se aceitável a proposta de que Lúcifer, Adão, Cain, Judas e inúmeros outros perpetradores estavam plenamente isentos de qualquer culpa, embora cada um deles tenha sido julgado por Deus da mesma maneira que uma que criança apanha insetos com a maior inocência, corta suas patas, arranca-lhe a cabeça, talvez ainda o despedace em minúsculas partes, então ateia-lhe fogo e rompe em gargalhadas. Porém, se Deus teve afinal compaixão ou magnanimidade para com alguém, este alguém trata-se de ninguém mais que o Diabo, pois muito sangue jorrou, as mortes foram incontáveis e frequentemente as remessas ceifadas eram grandes ou requeriam um grande espetáculo.

Sem dúvida o maior deles foi o suplício do indivíduo que pronunciou-se como a divindade encarnada, o que por intervenção do Espírito Santo recrutou pregadores céticos consciencioso quanto a suas índoles e a consequência disso. Sucumbiu às torturas e foi crucificado, ao que parece sofreu como qualquer outro homem e foi exposto como miserável, escravo; ou ainda com valor similar ao dos ladrões que o cercavam punidos igualmente. Sangrou, lamentou e desesperou-se no instante derradeiro de sua morte questionando o abandono da graça de seu pai.

A hipótese de uma divindade subordinada a Cristo por não possuir a mesma substância do pai (difundida pelo padre Ário em Alexandria, considerada a maior heresia dos inícios do cristianismo), não compensaria a evidência de que novamente a vontade divina havia extinguido qualquer compaixão que o próprio messias pregava; comprazendo ao Demônio que provavelmente aplaudiu regozijando-se com tal tragédia: Deus sacrficando-se, pecando para nos livrar dos pecados, tornando as leis mosaicas uma grande piada.

Cada vez mais semelhantes a nossas sentenças e deliberações tornam-se as deste Deus e reciprocamente. Se pelo espírito a ele somos unidos, embora comportemo-nos cada qual de uma forma e frequentemente desprovidos de qualquer moralidade, em tantas ocasiões tão malévolos, negativos quanto a caracterização que qualquer pessoa pode deduzir de alguma imagem oposta à da divindade soberana, então seria preferível crer na capacidade de cada indivíduo que estando ou não suscitado a fazer o que faz pela divindade pode produzir tantas generosidades quanto dissabores que a nós são muito reais e palpáveis.

"Mas este é tão generoso, humilde, sincero e sempre tem como retribuição o desprezo, a miséria; enquanto aquele outro obtém o que deseja com trapaças, velhacarias e de alguma maneira parece ser feliz e em conformidade com seu Deus." Atribuir ao ser supremo de sua crença apenas suas virtudes pode ser tão mais proveitoso que não é inaudita a proposição de inúmeros deuses com esse propósito. Por meio deste politeísmo acreditemos pois em nossas próprias virtudes abstraindo-as daqueles ídolos, tornando-nos pois semideuses (semi pelo fato da integridade ser atribuída através de qualquer capacidade metafísica que em nós só poderia ser interpretada como fantasia).