domingo, 5 de julio de 2009

Tempo, éter, tudo, nihil..

"[..] - Qual é, de todas as coisas do mundo, a mais longa e a mais curta, a mais rápida e a mais lenta, a mais divisível e a mais extensa, a mais negligenciada e a mais lamentada, sem que nada se possa fazer, que devora tudo o que é pequeno e que vivifica tudo o que é grande? [..] Zadig disse que era o tempo.
- Nada é mais longo - acrescentou - porquanto é a medida da eternidade; nada é mais curto, porquanto falta a todos os nossos projetos; nada é mais lento para quem espera, nada mais rápido para quem desfruta a vida; estende-se em grandeza até o infinito; divide-se até o infinito em pequenez; todos os homens o negligenciam, todos lamentam a sua perda; nada se faz sem ele; faz esquecer tudo o que é indigno da posteridade e imortaliza as grandes coisas. [..]"

Voltaire - Zadig ou O Destino


De acordo com a idéia cronológica dos gregos, em que o tempo é circular, qual seja ele um processo repetitivo analogamente fundamentado nas transformações decorrentes da natureza: na primavera as árvores florescem, no verão dão frutos, no outono perdem as folhas, e no inverno parecem mortas. Então o ciclo é retomado pelo advento da primavera, através deste raciocínio a decrepitude e o fenecer não são interpretados como tragédias, mas como renovações.

Contudo, o tempo ao qual somos inexoravelmente imputados, ainda que um tanto quiméricamente, atemoriza a muitos por conduzir à degenerescência e expiração; o que fomentou a insana busca pela preservação da juventude de antanho, e por conseguinte desvalorização do que é senil, inclusive pessoas. Esse pensamento não foi cabalmente disperso, todavia, raramente executa-se o procedimento ao qual os intransigentes do estado de senectude de outrora eram mais propensos; deparam-se pois com o desfecho por meio daquilo que negaram um dia vir a ser.

Imaginar uma posteridade gloriosa e arraigada em sucessos e satisfações, frequentemente torna-se algo depreciável se suscitados formos a uma condição obsoleta, o manifestar de desgostos fisiológicos, a desvalorização estética, etc.; dentre inúmeros outros desprazeres acarretados pela vaidade momentânea.

Afortunados são os que ponderam seus juízos e se utilizam da boa consciência para contrastar aspectos negativos, tais como a simples visão deturpada que muitos concebem sobre o clima chuvoso à noite. Pela símile do momento e apologia aos gregos, segue a contemplação.

Quando da infinidade da abóbada celestial a convalescença da intempérie irrompe em fulgores ao horizonte, trespassando as frondes da aléia, o soberano itinerário Apolíneo assume passo derradeiro, abrandando a atmosfera sombria à qual sobre o lençol de Morfeu a altaneira e silente Lua com sua serena à superfície terrestre desposará.

1 comentario:

  1. Nihil...o nada
    Apolíneo versus Dionisíaco...
    Dilacerações sobre o tempo cronológico e o "Princípio da Tragédia", e é a dialética nisto tudo o que me atrai e dissolve meus sentidos e reflexões.
    Conheçe a minha prataria?
    Muito bem, ou muito bom, como aceite minhas considerações.
    Álea insólita, decifra-me então...huahuehuiehaushuahs...

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